O uso dos vocativos bicha e viado por homens gays sertanejos: rede social e identidade

Autores

  • Jamilys Maiara da Silva Nogueira UFPE

DOI:

https://doi.org/10.70678/refami.v9i2.766

Palavras-chave:

vocativo, Identidade, comunidade de prática

Resumo

Este trabalho objetivou observar o uso de vocativos a partir de dados de fala de uma comunidade marginalizada, a LGBTQIAPN+. Para isso, investigamos a fala de nove homens cis homossexuais, do sertão pernambucano, em três diferentes contextos de interação, sendo elas: entrevista sociolinguística, conversa entre amigos e ambiente de trabalho. Observamos especificamente os vocativos bicha e viado que foram, e ainda são, usados como adjetivos pejorativos quando usados por pessoas de fora da comunidade LGBTQIAPN+, mas que, quando usados por essa comunidade, constituem uma forma de tratamento e até acolhimento. Isso significa que esses termos passaram por um processo de ressignificação dentro do arcabouço linguístico e sociocultural da comunidade. Esta pesquisa utiliza como suporte teórico e metodológico a Teoria da Variação Linguística (LABOV, 2001), valendo-se dos Terceira Onda de Estudos Sociolinguísticos (ECKERT, 2000). A pesquisa revelou que, i) os informantes apresentam variação estilística quando há mudança no contexto de interação; ii) o contexto de interação com amigos favorece a produtividade dos vocativos e a rede social dos informantes interfere nos seus usos; iii) os vocativos bicha e viado expressam uma marca de identidade e/ou filiação a um grupo específico, confirmando nossa hipótese; por fim, observamos que, iv), a identidade individual ou a identidade grupal realizada através do uso dos usos linguísticos são construídas nas práticas sociais como forma de resistência e manutenção de uma identidade social.

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Publicado

15-09-2024

Como Citar

da Silva Nogueira, J. M. (2024). O uso dos vocativos bicha e viado por homens gays sertanejos: rede social e identidade. Revista Falange Miúda, 9(2), 1–19. https://doi.org/10.70678/refami.v9i2.766