Discurso, função sujeito e ideologia no pensamento de Michel Foucault: Interfaces com Michel Pêcheux

Autores

  • Tiago Brentam Perencini Universidade de Pernambuco (UPE), campus Garanhuns

DOI:

https://doi.org/10.70678/refami.v9i2.847

Palavras-chave:

Michel Foucault, Discurso, Função Sujeito, Ideologia, Michel Pêcheux

Resumo

A minha escrita para o presente Dossiê visa pensar as contribuições de Michel Foucault para o campo da linguagem, tomando as especificidades dos conceitos de discurso, função sujeito e ideologia, estabelecendo paralelos aos mesmos conceitos utilizados por Michel Pêcheux e suas implicações para a Análise do Discurso (AD). A ideia hipotética que percorrerei é a de que o discurso no viés foucaultiano não se direciona como extensão de ‘ciências da linguagem’ - como a linguística, a lógica, a gramática e até mesmo a AD - mas adquire um caráter eminentemente filosófico, que não pode ser reduzido a questões científicas e epistemológicas, embora não as exclua. Pêcheux e Foucault cocriam o conceito de ‘formação discursiva’, mas o primeiro o relaciona diretamente à ideologia e luta de classes, enquanto que discurso no viés foucaultiano não é uma produção do dito por algo ou alguém, mas conjunto sobre o qual podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo. Enquanto que o sujeito do discurso pecheutiano é afetado pela ideologia e inconsciente, que faz dele um efeito da linguagem, instaurando também seu ‘lugar de fala’, para Foucault, o sujeito é aquele que pode usar determinado enunciado em função da ocupação de um lugar institucional, de sua competência técnica, conforme práticas admitidas em todo um jogo do verdadeiro, em função das diferentes posições que ocupa no discurso. A ideologia para a AD de filiação francesa pecheutiana é o princípio organizador da formação discursiva, mecanismo que autoriza o dito. Já em Foucault, um discurso não anula a sua relação com a ideologia, mas a coloca novamente em questão como formação discursiva, funcionando não como o componente do discurso, mas sim como um de seus componentes. Disso precede que o funcionamento da ideologia só pode ser descrito como prática discursiva, entre outras práticas. No nível prático, Foucault nunca tentou elaborar um dispositivo operacional de análise do discurso, pelo contrário, visa mostrar que nossas bases de sustentação conceitual e disciplinar pouco se efetivam.

Referências

ARAÚJO, I. L. Formação discursiva como conceito chave para a arqueogenealogia de Foucault. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

BARONAS, R. L. Ainda sobre formação discursiva em Pêcheux e em Foucault. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

BRANCA-ROSOFF, Sônia. Formação discursiva: uma noção muito ambígua? In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

COURTINE, Jean-Jacques. O discurso inatingível: marxismo e linguística (1965 – 1985). Trad. Heloisa Monteiro Rosário, n.6, Cadernos de Tradução, Porto Alegre, 1999.

COURTINE, Jean-Jacques. El concepto de formación discursiva. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

DOSSE, F. Renascimento do acontecimento: um desafio para o historiador: entre Esfinge e Fênix. Trad. Constancia Morel. São Paulo: Ed. Unesp, 2013.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Loyola, 1999.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FOUCAULT, M. Introdução (in Binswanger) [1954]. In: Ditos e Escritos I: Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Trad. Vera Lucia Avellar Ribeiro; Org. Seleção de Textos Manoel Barros da Motta. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006b.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

FREITAS, A. S. de Os perigos de uma ontologia política ainda sem cabimento ou o legado ético-espiritual de Michel Foucault, In: REZENDE, H. (org), Michel Foucault: Política, pensamento e ação. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

GUILHAUMOU, J. Les historiens du discours (textes de Michel Pêcheux choisis et préséntés par). Paris, Editions des Cendres, 1990.

HAROCHE, Claudine; HENRY, Pau; PÊCHEUX, M. La sémantique et la coupure saussurienne: langue, langage, discours. Langages. Paris, n. 24, p. 93-106, 1971.

HENRY, P. Os fundamentos teóricos da “Análise Automática do Discurso” de Michel Pêcheux. In: GADET, F. et al (orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Editora da Unicamp, 2014, p. 11 – 38.

INDURSKY, Freda. Da interpelação à falha no ritual: a trajetória teórica da noção de formação discursiva. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

MALDIDIER, Denise. L’inquiétude du discours (textes de Michel Pêcheux choisis et présentés par). Paris, Editions des Cendres, 1990.

PECHEUX, M. Análise automática do discurso. Trad. E. P. Orlandi. In: GADET, F. HAK, T. (orgs). Por uma análise automátia do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Trad. de B. S. Mariani et al. 2º ed., p. 61-161, Campinas (SP): Editora da Unicamp, 1993a.

PÊCHEUX, M.; FUCHS, C. Mises au point et perspectives à propos de l’analyse du discours. Langages, 37, 1975, p. 7-80. Edição brasileira: A propósito da análise automática do discurso: atualização e pespectivas. Tradução de P.Cunha. In: GADET, F. & HAK, T. (orgs.) Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 2ª ed. Trad. B. S. Mariani et al., p. 163-252, Campinas (SP): Editora da Unicamp, 1993b.

PÊCHEUX, M. Ler o arquivo hoje. In: Gestos de leitura, Orlandi, Eni (org). Campinas: Editora da Unicamp, 1997.

PÊCHEUX, M. Discurso. Estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes, 1999.

XXX . O enunciado no pensamento arqueológico de Michel Foucault. Kínesis, Marília-SP, v. VII, n. 15, p. 135-150, dez. 2015.

XXX. A arqueologia de Michel Foucault como procedimento filosófico de pesquisa. Humanidades & Inovação, v. 10, p. 33-46, 2024.

XXX. Educação, filosofia e magia: uma anarqueologia do cuidado de si entre o daimon e os sonhos. Marília/Oficina Universitária, São Paulo/Cultura Acadêmica, 2020.

ROMÃO, L. M. S. Formação discursiva e movimentos do sujeito: de como o cortador de cana é falado na mídia. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

SARGENTINI, V. M. O. A noção de formação discursiva: uma relação estreita com o corpus na análise do discurso. In: Análise de discurso: apontamentos para uma história da noção-conceito de formação discursiva. 2ª ed. revisada e ampliada. São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.

Downloads

Publicado

15-09-2024

Como Citar

Perencini, T. B. (2024). Discurso, função sujeito e ideologia no pensamento de Michel Foucault: Interfaces com Michel Pêcheux. Revista Falange Miúda, 9(2), 50–70. https://doi.org/10.70678/refami.v9i2.847