Sinais internacionais: da utopia ao cosmopolitismo surdo
DOI:
https://doi.org/10.70678/refami.v10i2.1428Palavras-chave:
Sinais internacionais, Pessoas surdas, SubjetivaçãoResumo
Os sinais internacionais têm sido descritos como uma língua de sinais convencionada para o estabelecimento de relações internacionais entre integrantes das comunidade surdas ao redor do mundo. Neste artigo, objetiva-se discutir os sinais internacionais como parte de um dispositivo que oferece condições para a formação de uma subjetividade cosmopolita associada a uma forma de viver a experiência de ser pessoa surda. Para isso, parte-se de um estudo teórico que mobiliza conceitos foucaultianos como dispositivo e subjetivação, bem como conceitos oriundos do campo dos estudos surdos como surdidade e surdotopia, articulando-os a acontecimentos históricos que perpassam os sinais internacionais identificados na produção bibliográfica que menciona essa língua. A partir disso, percebe-se três fases temporais que indicam a emergência desse dispositivo no século XIX, suas tentativas de padronização no decorrer do século XX e, por sua vez, sua popularização nas primeiras décadas do século XXI, com foco no contexto brasileiro. Por fim, argumenta-se que a convenção de uma língua de sinais internacional é marcada por uma intencionalidade surdotópica, que reforça a constituição de um Surdus mundi, uma subjetividade surda inscrita em um ideal cosmopolita.
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