v. 10 n. 2 (2025): Comunidades surdas e Línguas de Sinais: culturas, educação e processos de sociabilidade
A organização do presente dossiê evidencia, de modo consistente e teoricamente orientado, a consolidação de um campo de investigações que ultrapassa leituras deficitárias da surdez e se ancora em perspectivas que a compreendem como experiência linguística, cultural, política e epistemológica. Os dezoito artigos aqui reunidos, embora diversos em seus objetos e metodologias, convergem na construção de um eixo comum: a afirmação da centralidade da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e das práticas sociais surdas como fundamentos de produção de conhecimento, de subjetividades e de reconfiguração de espaços institucionais.
Do ponto de vista teórico, observa-se uma forte presença dos Estudos Surdos em diálogo com campos como a Sociolinguística, a Análise do Discurso, a Antropologia e os Estudos Culturais. Esse entrecruzamento permite deslocar a surdez do domínio biomédico para o campo das práticas sociais e simbólicas, como se evidencia, por exemplo, nas discussões sobre Deaf Gain, identidades surdas e subjetivação. Tais abordagens não apenas reafirmam a surdez como diferença, mas a projetam como potência epistêmica, capaz de tensionar paradigmas tradicionais de linguagem, cultura e conhecimento.
No âmbito linguístico, o dossiê revela um movimento importante de ampliação dos estudos sobre a Libras. Os trabalhos que abordam processos de formação lexical, variação linguística, criação de sinais-termo e práticas de nomeação evidenciam que as línguas de sinais não apenas possuem estrutura própria, mas também são atravessadas por dinâmicas socioculturais complexas. No plano educacional, os artigos apontam, de forma recorrente, para a urgência de práticas pedagógicas que reconheçam a Libras como língua de instrução e não como mero recurso de acessibilidade. As discussões sobre educação bilíngue, formação docente, uso de jogos pedagógicos e estratégias visuais evidenciam que a aprendizagem de sujeitos surdos está intrinsecamente ligada ao reconhecimento de sua língua e cultura. Ao mesmo tempo, os estudos revelam desafios persistentes, como a fragilidade na implementação de políticas públicas, a insuficiência na formação de professores e a necessidade de maior presença de profissionais surdos nos espaços educativos.









